O Designer Artesão além da madeira

O Designer Artesão
Foto: Wherb
Com uma produção focada em marcenaria, o designer cearense destaca a necessidade de um trabalho com princípios
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Elizandro Rabelo, 48 anos, transformou suas funções em assinatura e sua aptidão em trabalho ao criar O Designer Artesão. Graduado em Artes Visuais pelo Belas Artes, chegou a cursar Moda para manter-se próximo do desejo de ser designer. Depois de diversas tentativas – como o trabalho na indústria têxtil, a comunicação corporativa e até mesmo o empreendimento em uma loja de camisetas –, o quixeramobinense radicado em São Paulo encontrou no mobiliário improvisado de sua casa uma paixão. Dez anos depois, comandando um ateliê com 21 colaboradores, mantém o princípio ético de produzir para seus clientes somente aquilo que gostaria de ter para si, minimizando a influência de modismos e da produção em cadeia. Ao contrário, mesmo com mais de 150 mil seguidores somados em suas redes sociais e um trabalho reconhecido nacionalmente, o profissional mantém a essência artesanal e refinada de suas peças.


REVISTA DECOR – Você iniciou sua jornada no curso de moda da Universidade Federal do Ceará. Quando e como você decidiu iniciar-se no design de marcenaria?

ELIZANDRO RABELO – A minha vocação para o design é o trabalho manual. Sempre. O curso de moda, por exemplo, fiz por conta do design. Na minha cidade, na época, não existia possibilidades, não tinha curso superior na área de artes, só tinham cursos técnicos, alguns cursos livres e tal. E quando criaram o curso de moda, esse se tornou o que tinha mais skills para quem queria trabalhar com design de produto. Era um curso muito completo e que, na verdade, não estava formando mão de obra para trabalhar com estilistas; estava formando para trabalhar na indústria têxtil, para entender de produto, consumo, tendência, mercado, produção. O Ceará é o 2º maior polo de confecção do Brasil.

Isso foi muito bom para mim, porque eu comecei a ter muitas noções do que era trabalhar com design em escala. Fui trabalhar na indústria têxtil lá no Ceará e pude compreender como funcionam as dinâmicas do mercado. E fiquei três anos no curso, faltava um ano para me formar, quando apareceu uma vaga para trabalhar em uma empresa aqui em São Paulo. Não pensei duas vezes. Eu estava louco, estava insatisfeito com Moda, porque é um curso que vai se afunilando e você tem que produzir muita coisa relacionada a isso, como modelagem, e entender muitos pormenores. Aquilo já não era a parte que eu queria, eu gostava da primeira parte do curso – que se aprendia dentro da criação: fotografia, desenho, história da arte.

Quando vim para São Paulo, fui em busca de um curso que me interessasse na área de design ou criação. Eu encontrei na Belas Artes o curso de Artes Visuais, um curso geral para quem quer estudar artes, honestamente fui fazê-lo porque sempre acreditei que já trabalhava com design. O que me faltava era entender como transformar uma ideia em algo concreto, e ninguém melhor do que o artista para entender isso: a transformação do sentimento, da ideia, conceitos em algo que possa ser palpável e compartilhado para outras pessoas. Foi ótimo, eu aprendi muito, porque a Belas Artes é uma faculdade repleta de oficinas com tudo – serigrafia, fotogravura, desenho… –, onde aprendíamos a trabalhar todo tipo de material possível.

Ainda trabalhei, quando saí da faculdade, no mercado da publicidade, mas voltado para a comunicação corporativa. Nada a ver! Eu precisava seguir métodos e regras de comunicação, fiquei uns cinco anos trabalhando nessa área, e aprendi bastante, adquiri portfólio. 

Eu também cheguei a ter – com um sócio – uma confecção, uma marca de roupas chamada nonsense, onde fazíamos estampas de cinema antigo, algo que ninguém fazia na época. Eu adorava, fazia para mim. Fiquei um tempo lá, mas me distanciei porque não me encontrava mais ali dentro. Quando você faz algo que você usaria, é muito fácil criar, mas quando chega o momento que você começa a criar por ter uma demanda de mercado e não faz aquilo que você teria, fica difícil.

DECOR – Como essa miscelânea de conceitos acadêmicos, teóricos e práticos te levou ao design de produto? Você chegou a pensar em permanecer em alguma dessas áreas, das artes visuais ou no têxtil?

Elizandro – Eu acho que foi uma coisa bem circunstancial ter chegado ao design de produto e, especificamente, na marcenaria. Em 2013 eu tinha me separado, me mudei para outra casa e comecei a mobiliar o espaço. Mobiliar uma casa é algo caro, eu não gostava de nada e, quando gostava, geralmente a peça era mais cara do que o lugar. Não dava, era incompatível com o meu bolso. E eu comecei a perceber que daria para eu fazer alguma coisa, porque eu tinha noção de desenho tridimensional, de escultura. Não foi difícil compreender os skills básicos: eu comprei uma furadeira, uma parafusadeira e uma serra tico-tico. E com isso eu comecei a fazer as coisas da minha casa, comecei a montar os primeiros móveis de forma meio quadrada, produzir as ideias que estavam na minha cabeça. Depois de mais ou menos um ano fazendo isso, produzindo uma coisa ou outra, eu tomei gosto e me disse: “cara, eu vou fazer isso aqui!”.

Nessa época, tinha acabado de sair daquela empresa em que eu era sócio. Peguei o dinheiro, fiz uma viagem para espairecer, pensar um pouco na vida. Peguei o restante do dinheiro e comprei em máquinas e em marcenaria. Olha que loucura! Comecei ocupando o final de semana e, durante a semana, eu continuava com os meus trabalhos de design – eu fazia projeto gráfico para uma empresa e ganhava uma grana. Aí chegou 2014, numa crise terrível que antecedeu o impeachment da Dilma. Só se demitia, e aqueles que contratavam meus freelas na área de design pararam de contratar. E eu fiquei lá dentro de uma oficina com um monte de madeira de Pinus – a única madeira que eu conseguia pagar na época –, as máquinas, uma casa alugada… e eu precisava pagar aluguel. 

“Agora eu vou ter que virar e fazer isso aqui para pelo menos conseguir pagar o aluguel”. Comecei a produzir algumas peças, redesenhar e a tirar da cabeça as coisas que eu queria ter. Sempre começou a partir daí: sempre foi aquilo que eu gostaria de ter. Acho que é sempre mais fácil, né? Você escolhe uma coisa que você gosta, é mais fácil você se manter firme naquilo. E foi exatamente isso que me segurou, porque a economia ficou lá embaixo, não se contratava para nenhum tipo de serviço na minha área. 

Fiquei quatro anos assim. Quem me tirou, de certa forma, desse ostracismo, desse isolamento, foi o pessoal da feira Rosenbaum. Não sei como a Cris (Rosenbaum, curadora da feira) chegou em mim, mas ela chegou.

Leia a entrevista completa na Edição 173 da Revista Decor.